Até o Ultimo Minuto - Mais Estranho que a Ficção



Mais estranho que a ficção
Stranger Than Fiction
EUA, 2006
Comédia - 113 min
Direção: Marc Forster
Roteiro: Zach Helm 

Elenco: Will Ferrell, Denise Hughes, Tony Hale, Maggie Gyllenhaal, Emma Thompson, Queen Latifah, Tom Hulce, Linda Hunt, Dustin Hoffman, Thomas R. Trojanowski, Kristin Chenoweth, Christian Solte

"Esse é um livro de um homem que não sabe que está prestes a morrer, e morre. Mas se o homem sabe que vai morrer e morre assim mesmo, morre voluntariamente, sabendo que poderia impedir... Não é o tipo de homem que quer manter vivo?".


Todo escritor é conduzido por dois elementos cruciais que permitem que o exercício da escrita funcione com naturalidade e eficácia: a inspiração e a criatividade. A primeira vem inesperadamente, de maneira espontânea, e pode acontecer nos momentos mais imprevisíveis e corriqueiros. A função da segunda é organizar e dar vida a tal ideia inspiradora, de modo habilidoso e coerente. São as duas peças mais importantes do quebra-cabeça e perdem totalmente o valor quando separadas.

Afinal, leitores são criaturas muito espertas. Conseguem avaliar facilmente a qualidade do livro, e como consequência são capazes de medir a destreza do autor no quesito coerência e coesão. Cabe ao escritor suportar o peso das críticas, pois elas são resultado do pensamento criativo que gerou sua obra. E se o fio da criação não for bom o suficiente, a coisa fica feia; a crise de todo escritor é a falta de criatividade para contar sua história.


Mais Estranho Que a Ficção revela o quão desesperado um escritor pode ficar com a ausência de criatividade e como isso inexplicavelmente afetará a vida de um homem. O filme foi dirigido por Marc Forster (mesmo diretor de Em Busca da Terra do Nunca) e escrito divinamente por Zach Helm. Muito embora esses dois fatores contribuam - e bastante - para que o filme seja impecável, eu estaria blasfemando ao ignorar outros detalhes que também fazem dele uma obra prima.

O filme começa com uma breve introdução à vida de Harold Crick (Will Ferrell) por meio da voz de uma narradora. Ela nos apresenta Harold como um auditor da Receita Federal, um homem com hábitos inusitados (como contar escovadas e a quantidade de passos até o ponto de ônibus) e ações inteiramente cronometradas. Pano de fundo: a solidão que o acompanha e uma vida aparentemente sem ambições. Seu mundo ganha uma reviravolta quando ele passa a escutar a voz da narradora e descobre que a mesma pretende matá-lo. Assim, Harold Crick é lançado contra o próprio destino, em busca de alguém que mostre o caminho da salvação antes que a implacável morte o arrebata.

O que Harold jamais poderia suspeitar, no entanto, é que a tal voz feminina pertence à Karen Eiffel (brilhante atuação de Emma Thompson), uma renomada escritora cuja especialidade é escrever tragédias. Em todos os seus livros os personagens principais morrem no final e com Harold não será diferente. O problema é que Karen sofre com a falta de criatividade; enquanto ela não descobrir um modo de matar Harold Crick, a história não terá um ponto final.

De certa forma, o filme tenta mostrar que damos o devido valor às coisas nos momentos de maior desespero. O fato de saber que vai morrer a qualquer instante faz com que Harold enxergue a vida sobre outra perspectiva; o homem que antes era solitário e sem ambições passa a almejar propósitos, adquire novos hábitos e experiências, e ainda reúne a coragem de falar com a mulher que não possui muito apreço pela sua cara. Harold luta pela sobrevivência, e para tentar impedir a fatalidade que o aguarda ele pede a ajuda do professor de Literatura Jules Hilbert (Dustin Hoffman). Sem que ambos percebam, o encontro entre criador e criatura fica cada vez mais próximo.

As atuações, a direção, o roteiro, e a trilha sonora encaixam-se perfeitamente, com harmonia e classe, fazendo de Mais Estranho Que a Ficção um filme obrigatório para quem gosta de ler e ama escrever, especialmente para aqueles que cursam Letras. Ainda que a linguagem cinematográfica seja diferente da linguagem literária, a ansiedade é semelhante à leitura de uma obra porque o espectador torce pela vitória de Harold. Por mais que a falta de criatividade atrapalhe a construção de um livro, impossibilitando que a sua trama chegue a um final ideal, às vezes o próprio final encontra o caminho certo para encerrar a sua trama. E os leitores, agradecidos, reconhecem isso muito bem.


"Essa é a essência de todas as tragédias. O herói morre, mas a história vive para sempre".

Ideval Junior

Capricorniano. Blgoueiro nos tempos livres. Adimirado pela sua Estante. 18 anos.

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